Ela disse-lhe nunca mais, ele respondeu-lhe para siempre. Foi assim. Conversa de cama em plena rua. O universo em duas frases. Era Outono, dia de folhas amarelas (noite talvez). Promessa de hora quente, na chuva miudinha da banalidade. Ficou a memória, fica sempre um rasto, moinha de dor de dentes, ainda as mãos entrelaçadas, perder o que se deseja. Ela recorda agora. Passaram quantos anos (terão sido apenas meses?). Anda perdida do tempo, falta-lhe relógio para medir as estações. Não conta os dias, nem risquinhos na parede nem grades na janela. A sua prisão é outra, vê-los voar e não alcançar nenhum igual. Qual aquele, ela e ele pela primeira vez, última, tão única. Pode ter sido a qualquer instante (dia talvez), não sabe, pouco importa. Pensa que havia estrelas no céu, quase jura, mas podia ser somente o cintilar dos seus olhos, veres que se querem, quase figas. Não se lembra, diz que é de noite, é sempre assim, todos dizem (até os filmes) que o sexo nasce à sombra dos dias. Coisa de lua. Mas havia sol, pelo menos luminosidade, qualquer coisa de alumiar, ver melhor, aperceber-se e estremecer. Um raio. O desejo tem gambiarra, é capaz de ser isso, talvez.
Que estranho, era para ser sexo. Apenas sexo. Que tonta, ela. Bom sexo, quer dizer, no cume do perfeito, nunca é apenas, mas espécie que paira sobre fazer amor, voos rasantes a encore. Pois. Agora ela cerra as pálpebras (bem pode fazê-lo), sacode as melenas, aquele seu jeito de as puxar de mansinho para as traseiras da orelha esquerda. Era Outono, estava frio e ela tossia. À socapa, boca por entre as mãos, boca para trás das costas. Fazia assim, lume-brando, quando a ansiedade, borbulhar no confim da alma, lhe trespassava a razão. E ele ria-se, dos seus pudores, de si mesmo, deles. E ela acompanhava-o, zombar do umbigo é charme de primeira edição. Olhavam-se então, ele inspirava, suspirava-se, desesperava-se. Ai, futuro à espreita; ai, amanhã algum. Nas ruas de Lisboa, algures entre o Tejo e a Sé. Agora ela lembra-se, tudo como se fosse há pouco. Mais ainda os lábios, a boca tão dele. Mas foi há tanto. Amparo por inteiro, os lábios, o inferior bravo a mordiscar, aluar. Descobrir. Sim, gostava dos seus lábios. Beijá-los e beijarem-se. Gostava do modo como se fundiam, como se enfrentavam, isto é, dançavam. Havia um travo, um sabor, qualquer coisa de inusitado, sorver, um aroma, não doce, tragar, uma vontade, tão doce. Como mercearia.
A do chão de sua avó, dela, bisavó também, lugarejo de mil gentes e loja vende-de-tudo lá para as bandas da muralha. Sombrinhas de chocolate aguardavam bocas pequenas, junto à caixa registradora, mentira, isso era invenção por ter, ao papel manteiga e ao lápis de carvão. A dona chamava-se Clotilde, gorda falava numa aura de chouriço. Tinha sempre, às vezes oferecia, “tome lá” atirado à freguesia, uma tábua de madeira com pão de trigo e enchido fumado. Aos nacos, pedacinhos de gula. Queimava o dia a lançá-los para a boca, mastigar, engolir. Dentes amarelados, cáries por certo, melenas na bengala dos ganchos. Pernas branco pálido, às escamas e nem escaladas. A última meada da combinação de esguelha, sempre a espreitar por baixo da saia, renda cor-de-rosa a enganchar-se nas farripas de madeira das caixas de fruta, rebeldes que nem cabelo de traquina a pente três cortado. Oferecia o que tinha a quem cruzava o umbral de sua porta, velhas de carteirinha na mão e miúdos enviados aos mandados. Porquê a merceeira agora? Ela engasga-se no mofo da memória, tosse de novo, relembra-se a olhar Clotilde pelo canto da curiosidade, estender a mão à demasia e à rodela de chouriço. (Gostava de caminhar à borralha com a sombrinha de chocolate.) Estava na idade dos primeiros arroubos, ela, porquês emudecidos, dúvidas de não perguntar, proibido ruborizar a mãe, e vontade de esclarecer
- Mamã, tu também fazes sexo?
Fio de voz desengonçado nas hormonas. Já não crer na trouxa da cegonha, olhar para uns e outros e pensar nisto, mentira, “naquilo”. Sim, na idade do descobrir, matutar em sexo era ter a ideia “naquilo”. Ela já nem pequena nem grande ainda, Média, boneca de olhos de vidro abandonada há pouco, tamanho de rapariga. À tarde, depois de sair da escola, encostava-se ao balcão e, de cabeça “naquilo”, afoitava-se nas luas da merceeira. O marido devia enjoar, escapar-se-lhe no leito, estar farto, antes tombo no chão que beijo, virar as costas de pijama à intimidade de charcutaria. Bah!
Isso foi antes, ela a caminho de hoje. Agora não, já chegou, virou crescida e é mulher. Revive, ela e ele. Quer contar, falar ao ouvido do universo para não magicar outro tanto. Claro. O segredo perdeu o sopro, pôr os problemas na equação dos verbos vale como caminho trilhado para a resolução. Não é soletrar es-tou tris-te e ficar alegre, falta receita, tão-pouco cair no divã ou erguer o pêndulo. Ela recorda-o, a ele, com força, para tentar esquecer, -lo. Aos seus lábios de jasmim e aos beijos longos, sem fim e o fim inevitável. Quanto tempo ficaram juntos? Um instante, nada mais, apenas a vida inteira. Aquela noite de Outono (dia talvez). Os dois a caminharem, horas velozes, um passo a seguir ao outro, suave solto, num só compasso. A velejarem pelas ruas de Lisboa, por eles mesmos, quase “nós” sem destino. A noite pairava fria, nem lua cheia para aquecer. Não se encontrava vivalma, ninguém para os olhar, apontar o indicador e adivinhar
- Estão condenados
Acharam-se na Praça do Comércio, sob o Arco da Rua Augusta, magotes de trabalhadores a correrem para o cacilheiro, velhinha enlutada a tocar ferrinhos, voz a fazer de Severa. Sabiam ao que iam, cumprir o desejo. Esperavam há meses, dois ou assim, quem sabe se cinco, por aquela redenção. Mas isso não pesava, antes embalava. À sua maneira, ela sentia que era tempo baptizado, morno arrastar dos preliminares. Algo semelhante. Como comer uma torrada e guardar a fatia do meio para o fim. Não se conheciam, nunca se haviam cruzado, em nenhum lugar os dois ao mesmo troar, em paralelo algum juntos. Por pouco, juro que por quase nada, somente por uma nesga não se encontraram antes, ela a partir de uma esquina do mundo e ele a chegar.
Mas soava a hora. A tal. A agonia da felicidade agendada a correr mais veloz do que a brisa morna da cidade, ela e ele em direcção ao que desejavam, os dois no mesmo pedaço de mapa, quase a verem-se, tocarem-se (despirem-se, sim, queriam tanto). A imaginação é ventre de parir perfeição e eles concebiam há meses, agora aguardavam o céu, o mundo a seus pés, os dela sob os dele, ao de leve, num passo de Bolshoi, sapatilhas de pontas. Não era amor, nada disso, mais vontade somente de acariciar, debicar o corpo que o mistério tornara idílico. Enfim, talvez amor a prazo curto. Dele, nem uma fotografia ela alguma vez vira. E se fosse feio? Não seria. Tudo menos bigode, pêlos que arranham, moda de guarda republicano à mesa de marisqueira (palitar o canino é que não). Era mexicano, sim, isso era um sinal, bom e papas de mel, não teria Amor de Mãe tatuado no braço, a agulha de marcar soldadinhos de carne.
Não o vira, intuía-o. Na cama, a horas de o encontrar, a sonhar tê-lo ali, debaixo dos lençóis, luz acesa para lhe descobrir o rosto. Algo lhe sussurrava, talvez só o seu querer, que a curva do ombro dele tinha o exacto espaço da sua cabeça. E. A intumescência, pois. (Para quê enganar? Passara a noite inteira a imaginar esse momento, milagre em gerúndio, a acontecer ardente) sim, seria o aconchego perfeito do seu prazer. Primeiro, sob as calças (seriam de ganga?), a braguilha (provavelmente, botões) a caminho de crescente, prenúncio de explosão. Depois, as mãos dela, sentidos alerta. A esquerda a descobrir-lhe o vale do pescoço, os lábios num beijo andarilho a aventurarem-se pelo peito (tomara que não seja peludo). A direita sem freio, cuidadosamente a desapertar-lhe o cinto, a livrar o couro da presilha. A seguir, devagar, por entre um sorriso e um olhar, a desembaraçar-se, a desembaraçá-lo dos botões (quem sabe, braguilha). E ele mais livre, passadeira estendida a aliviar(em)-se. A mão a descer suave, tocar pela primeira vez, apalpar e perceber a excitação (tomara que seja bonito). O sexo é como o resto, presa fácil do conceito de belo, bem-haja haver gostos para todos. E ela tinha o seu, preferência ganha ao girar dos amantes. Apenas ao toque das falanges podia dissertar sobre o sexo alheio, perceber se iria acariciá-lo com os lábios ou dedicar-lhe simplesmente os cuidados básicos. Como no centro de saúde do bairro, tratamento primário para acudir uma emergência, ficar melhor e correr para casa. Basta. Não quis fantasiar mais, nem outro afago. Chega. Bulia-lhe com a insónia, na véspera de o conhecer, traçá-lo com destempero de mulher em jantar de amigas. Sim, pensam nisso, no tamanho do sexo de quem se quer, às vezes. Melhor arrefecer, suspirar fundo, dar uma volta no travesseiro e adormecer de lado, mãos a apararem o pensamento.
Mas a história vem de antes, ponteiros antes do encontro. Vem de um acaso, ponto de partida do universo. Ele dormira na sua cama, diz que gostou dos lençóis, deve ter inspirado o cheiro dela, qualquer coisa forte, não sei a que cheira ela. Nem entendo de enologia, clamar frutado, acenar com o rosto, franzir o nariz e prosseguir, tem maçã, frutos do bosque, baunilha. O fragor dela pregado aos lençóis, à almofada, à cama inteira. Espalhado por cada palmo de sofá, pelo tapete claro da sala, a trepar paredes, a invadir o espelho do quarto, do hall. Foi por isso que se quiseram ver, conhecer. Um médico, houvesse aqui algum, saberia explicar, teoria com direito a poltrona numa conferência, palmas de colegas ensonados, feromonas a expiarem mea culpa. Falta uma coisa. Ele achava que havia química, coisa difícil de explicar quanto mais de entender, algo entre eles. Viveu na sua casa, mundo de uma estranha, durante semana e meia. Um amigo comum passou-lhe as chaves para a mão, o endereço e a suspeita
- Vais adorar, só é pena não conheceres a dona. É de ficar doido
Os amigos limam sempre as arestas da biografia. Ele nunca estivera em Lisboa, era a sua primeira vez. O Verão derramava-se sobre as colinas e os decotes das mulheres. Ele recebeu as chaves, apanhou um táxi e despejou o endereço
- Cerca de Barrio Alto
Ela estava longe, de casa e das chaves de nela se embrenhar, andava pelas margens de África, os dias empenhados no trabalho. Antes de partir, dissera sim a um amigo, claro que não se importava de emprestar a casa “ao mexicano”. A sua, no centro de Lisboa, cais eleito para desvendar a cidade. Arrancara tão à pressa, ainda fechar a mala e o táxi lá em baixo a buzinar, pi-pi
- Minha senhora, vamos lá embora
pi-pi, que lhe faltaram minutos para arrumar a sala, estranhar a importância de receber um estranho. E ele, que terá pensado ao chegar? Ele, “o mexicano”, em casa dela. Domar a manha da fechadura do prédio, passo, subir as escadas de madeira, passo, ranger de boas-vindas, passo, alcançar a porta, olhar para trás desconfiado, confirmar que nenhum vizinho o confunde com ladrão, enfiar a chave na fechadura, rodá-la devagar, o estalido do trinco, prenúncio de aventura. Passo. O que terá sentido? Abrir a porta e dar de caras com outra pátria. O móvel da sala e as fotografias nele pousadas. Fronteiras de uma estranha. Ela pequena, mal das amígdalas, num fato de gato. Ela grande, mochila a abarrotar, na Birmânia. Vê-la e adivinhá-la. Entranhar a importância de ali estar. Ele era mais velho, década no mínimo, pouco importa, o repertório do desejo não olha a primeiro choro.
E agora, neste momento, ela a imaginá-lo. Não sabe o seu nome, apenas a pasta com que escova os dentes. Elixir branqueador, travo a hortelã, indicações em francês. Basta-lhe. Por certo, ele passou por Paris antes de desembarcar em Lisboa, hálito de merceeira nem arma o que é. Sabia mais um punhado de coisas, ela, traços de um retrato vago, coisas simples, daquelas de não dar atenção, como se não fossem as mais importantes. Por exemplo, bebia vinho tinto, bom, segredaram-lhe os rótulos das garrafas vazias, meticulosamente arrumadas junto ao frigorífico. Sofisticado. Baixava a tampa da sanita. Altruísta. Fora ao cinema, sentara-se em frente à tela e rira (será?) a ver Hugh Grant gingar à Elvis Presley, prazer à vista num bilhete esquecido. Puro. Todas as manhãs, ele passava os olhos por dois jornais, um matutino português, qualquer um, e o El Pais. Viajante. Passara o umbral dos cinquenta, talvez começasse a afastar a página, notícias a dois palmos, algo abaixo do olhar, para ver melhor. O gesto, profecia certa das reviravoltas de cama, noites sem sono. Ele estava, devia andar, afastado já de olimpíadas, uma e outra vez, mas não ainda de aluamentos. Sim, ela acreditava, o que lhe faltasse em fôlego sobraria em imaginação. (Mas, e se. A lei da compensação, essa mesma, não passasse de mais um dos mitos que os vividos apregoam e as miúdas apanham como doença venérea?)
Cura, indo eu, indo eu a caminho de Viseu. Ele na cabeça dela era ele no corpo dela. Encontrei o meu amor! E o beijo, lábios de carmim. Tropeça na espiral, a lembrança agarra-a. Ai Jesus, que lá vou eu! O vizinho bem-educado, calças de vinco e óculos na ponta do nariz, a pedir-lhe um ósculo e ela a aprender quantas formas tem um beijo. Mais tarde, o padre lá da terra, batina no roupeiro e livro de ponto na mão, a ensinar as declinações mortas do latim. Ela na sala de aula, pastilhas elásticas cravadas em tampos, a arrebitar. Oh não, piscis cona foderunt, talvez não bem assim, a aprender de repente, tradução à vista, os peixes furaram a rede. Lição que agora não conta. A história, outra volta, regresso aos despojos dele. Coisas dele em casa dela. Largadas. O mais importante, o melhor, aparição, o bilhete, aquele bilhete. Folha de papel deixada em cima da mesa da sala-de-jantar, dobrada em dois, leito de uma flor. Não um ramo, nada disso, tão mais original, um pedaço do arbusto, coincidência, daquele que ela plantava em pequena nas traseiras de casa, sementeira a pá de praia aberta, planta esguia, a lembrar a da pimenta. Ele ofereceu-lhe, deixou para ela o que lhe parecia ser deles, uma meada de flor-de-castidade, branca bonita. O que quereria dizer? O papel, o trilho da resposta em celulose sem linhas, nem um obrigado pela hospedagem, nem um agradeço muito, o destino
- Cuidado. A vida pode acontecer a quem empresta a chave de casa a estranhos
Ela leu-lhe ímpeto, sorriu, encostou-se à mesa. Então, com as duas mãos, apertou a missiva junto ao peito. Acto instantâneo. Cheirou-a, releu-a, duas, três, cinco vezes, virou o papel do avesso, encontrou mais
- Para grandes males, grandes cortes
As entrelinhas a desamarrarem-lhe a curiosidade, amálgama de fé e esperança a picotar. Como pulga a tingir o caminho das estrelas na barriga de alguém. Não acreditava, sentia que é o que mais soma. Ele ainda ali. Mexicano que nunca vira, a sentar-se na sua cadeira de balouço, a ouvir as suas canções, a passar os dedos morenos pelas páginas dos seus livros preferidos, quem sabe demorar-se nas notas encavalitadas nos parágrafos, letra a lápis esmiuçada. Talvez estivesse cansada, ela, vulnerável, só assim se entende, ou pode tentar, que as frases, aquelas, lhe tenham tocado que nem meteorito a terra. Chegara de viagem, horas apertada num assento de turística, as pernas acabrunhadas, estava afadigada. Pegou no bilhete e avançou para o quarto, deitou-se, uma almofada sob a outra, a cabeça no monte de ambas, e o bilhete a sussurrar-lhe firme
- Cuidado. A vida pode acontecer a quem empresta a chave de casa a estranhos.
Nessa noite, adormeceu a sonhar, vaguear no estranho e embater noutros dias. À mesma hora, ele aterrava no México. É cirurgião, pergaminhos no quadro de honra do país. O telemóvel a tocar sem parar, mensagens envelhecidas, convites para palanques, champanhe, mesas de operação, bisturi. Os filhos. A mulher, ex-mulher, como saber. O irmão e a filha dele, sua sobrinha. E ela? Nada, nem um olá. Mas como? Não a conhecia, que fazer, as meninas (sim, as mães ensinam essas coisas às filhas) aprendem a não falar com estranhos, mas ele jurava-a rebelde, talvez não se enganasse, erro foi não deixar contacto. A distância a avolumar-se e com ela o mistério. Arrastavam-se os dias, as semanas e dois estranhos, uma mulher e um homem, em continentes diferentes, nas esquinas dos afazeres a imaginarem-se juntos. Ela a ler e a reler o bilhete, a adivinhar-lhe o sorriso de dentes brancos, mordidas mansas na orelha. Ir dançar e fantasiar-se nos braços dele, encontrar o amigo e fazer conversa, o mexicano, render-se a pontos de interrogação vestidos de indiferença. E ele. Na sua cidade, Mérida, a sentir-se um estranho. Chegar a casa, abrir a porta, a vida toda lá dentro e ele sem lá se rever, entrar, olhar e não a ver, nem de gato nem de turista. Fechar a porta, avançar e tomar assento na praça. Escolher lugar à sombra, crianças em uniforme de colégio a brincar na relva, sentar-se. Ele numa cadeira confidente, jornal aberto para lugar vazio, ele a vê-la ali, olhá-la nos olhos e confessar
- Te quiero
O tempo a escorrer, meses fulminados no calendário de duas cozinhas. E um dia. Estava calor, ele a cumprir o que defendia de mãos arreadas nos suspensórios, “para grandes males, grandes cortes”, moral de cirurgião. E ela em casa, a receber a surpresa, “para mim?” estremunhado ao carteiro. A delirar. O pedaço de um ramo, desta feita lilás, tão belo, a livrá-la da insónia da espera, longa, a devolvê-la por inteiro, súbito. Assombrada, sem segundo para se recompor, apanhar os cacos do seu espanto e abrir o envelope. Isso. Puxar e descolar a cola, nada disso, lancetar de uma agonia, os dedos trémulos como em instante de sacar camisa-de-vénus do leito de plástico (não plástico, outra coisa, foge-me o nome), cuidado para não rasgar. Camisa de amor, fazer amor, que bonito. Não, pivete a látex, colete de fazer sexo, Sim, chamar os bois pelos nomes. E ela em frente ao carteiro, muda, agarrada ao sobrescrito. Novo bilhete, ataviado em presságio. Tinha a janela da sala de par em par, entrava o fresco e os acordes de um forró, saudades de imigrante. Sem adeus, ela a fechar a porta no nariz rosado do carteiro. Abre a carta. A caligrafia dele, a mesma, só a tinta diferente, toque de outra caneta. Tanto tempo, meses cruzados a sonhar com um estranho, a idealizar o encontro perfeito, a primeira impressão parida e criada na lonjura do desconhecimento. E agora, agora as letras
- Amanhã, três badaladas depois da hora do chá, sob o Arco da Rua Augusta
Ele no avião, rota inversa, os pacientes no hospital à sua espera e ele nem cancelar amanhos de bisturi. A mulher, ex-mulher, os filhos, o parceiro de ténis, o mundo desfeito a telefonar e ele a desligar. Que se dane. Grande corte para alcançar maior bem.
A espera a terminar, a tardar mais ainda, os dois suspensos no mistério, quase a conhecerem-se e receio da realidade. Como crer? Avançar para o encontro, cruzar as ruas da Baixa, olhos cegos à confusão, beijaria bem?, cheirar os pulsos e colocar novo sopro de perfume, braços de refúgio?, avançar. Chegar perto, o estômago num desassossego, continuar ou esquecer. Respirar fundo, ajeitar o cabelo atrás da orelha, ir. Encontrarem-se. Era Outono, castanhas assadas e casacos apertados. Ela a caminhar para ele, a ideia mais ousada. Vestira uma lingerie nova, esperavam-se. E então. A imaginação indiferente, ela a criá-lo, de novo a pensar-se nos braços dele, logo ela que nem dada era a matutar “naquilo”, agora, quer dizer, desde que o descobrira, a pouco pensar noutros prazeres. Não dormira com muitos homens, os bastantes para conhecer pequenas leis. Do corpo deles e deles nela. Agora ria-se de pormenores, como ouvi-los tratar o sexo por outra gente. Baptizá-lo de Animal ou inspirar-se no jardim zoológico ou na banda desenhada - Leão, Mickey, Tigre, Batman, Tubarão. Deteve-se, pés em calçada portuguesa, preta. Estava sob o Arco da Rua Augusta, tudo ou nada. A imaginação a perder espaço e ela a perder o pé. Agarrar o momento, conhecê-lo, a ele, ou ficar com o que dele já tinha. Não lhe conhecia o rosto, como descobri-lo por entre a bruma que seguia para o cacilheiro, casa. Avança, olha em redor. Espera, minutos em fila indiana, os saltos altos a torturarem-lhe o mover. De repente, um toque. No ombro, pluma quente. A ansiedade a abocanhá-la. Ela a rodar sobre o calcanhar, devagar. O mundo quedo, inspirar espanto. Ergue o queixo, olha-o, olham-se
- Hola
- És tu?
É ele. Treme e sorri. Segura-lhe a mão, silêncio, abraçam-se, pode ser que uma lágrima. São velhos conhecidos, a ponte da distância é a sua casa. Ela sabe disso, tem medo. Ele também. Entrelaçam os dedos e, em silêncio como velhos amantes, partem pela cidade. Caminham todo o dia (toda a noite?), a felicidade a bordar-lhes o sorriso que não cede. E uma vontade a empurrá-los, formigueiro nas carnes, livrarem-se das roupas e acolchetarem os corpos nus. Andam, um passo e ainda outro, notas em pauta. Sem palavra, falar de quê quando tudo está dito? Revelam-se. Depois (a que horas?) detêm-se à porta de uma pensão. “Ninho das Águias”, na Costa do Castelo. É bonita, alguns quartos oferecem vista, o colchão é confortável, cheira a lavanda. Ficaram à porta, eles. Era a mais estranha de todas as suas noites, doce. De repente, ela não sabe, escapa-lhe a memória, como foi, vá-se lá saber, foi assim, ao que iam a começar a cumprir-se.
Duas bocas que se esperavam, beijo agendado. Tocam-se, lábios num samba. Quanto tempo? Alvorada já. Continuam na rua, a dois passos da porta e das escadas que conduzem aos quartos. Pensam esticar o dedo e tocar à campainha, mas a felicidade veste-se de abismo. Paira uma lua quente (sol, talvez), nem âncora nem zarpar. De súbito, unem as pálpebras, um suspiro, afastam-se da porta. É dia. Olham-se de novo, preenche-os uma humidade mágica, certeza de vida como rejubilar num orgasmo. Ela recua dois passos, ele segue-lhe o instinto. Não se atrevem a avançar, antes conservar a história, a deles, dois estranhos que se querem, ficar pelo perfeição do mistério.
Agora ela recorda, isso tudo e mais um pouco. Traz os lábios dele impregnados nos seus, lembra-se como se ainda fosse. Todo o sexo naquele beijo. Ósculo, vizinho de calças engomadas. O seu corpo, tocar à campainha, mergulhar na lavanda e percorrê-lo de Norte a Sul. Mas não. Dois passos para trás. Um sorriso. As mãos num único adeus. Último. Metro de calçada e gente apressada a separá-los, muro de cobardia, medo de arriscar e perder. À distância, ela a dizer-lhe nunca mais e ele a responder-lhe para siempre. Como se o desejo fosse um lugar onde se pode estar, onde se pode ser feliz. Talvez lágrimas, tudo se confunde já. O arrependimento bate agora, maçaneta em porta trancada. Ela sou eu.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
SORTE MALVADA
Anda às voltas pelo quarto, Levante e Poente. A tijoleira está gasta, tem o molde do seu caminhar - dois pés para lá, dois para cá. Primeiro solas, a seguir elas cremadas no chão. Descalço, barbas a varrerem pó. O quarto tem a sua vida presa. Conta-a. Todos os dias, uns iguais aos outros. Conhece cada metro, cada palmo, cada polegada. Passos sem fim, número 43. A mesma pegada, sempre a mesma, aos 20 anos o corpo encerra o crescer e em 20 anos não enceta o mirrar. Passos. Tempo voado. Agora dá voltas, o destino perdido. Incrédulo. A claridade cega-o. A porta está aberta, dá para a rua. Passam rodas com gente dentro, com gente em cima. Mulheres de saia curta, às cores. Há quanto tempo não via Manuel o mundo?
Há 20 anos, a mãe morreu pela manhã. Desconhecem-se as badaladas do último sopro, a ronda exacta dos ponteiros do relógio da sala. Esguio como ponto de exclamação: “Eu estou aqui e sou dono do teu tempo!”. Ninguém sabe quando morreu, andava para partir há muito. Um inchaço, uma dor, um cansaço – mal sem nome. Terá sofrido, sorrido? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o relógio de vaidades burguesas, oferecido por uma tia velha de que ninguém lembra o rosto. Em quando andaria ele? É dono do tempo, mas não do que cabe nele.
Manuel acordou à hora do costume, galo de crista no ar, silêncio de pernas curtas, sete badaladas. Despertou ansioso, o laço de um presente aguardava os nós dos seus dedos. Era o dia do seu aniversário. Quereres para amanhã desabotoavam-lhe o sorriso. Faltava-lhe um dente, nada que lhe roubasse o encanto. Corpo de celta, olhos adourados como que pincelados, coisa de arte. Esfregou-os, ramelas nas esquinas, afastou as mantas de lã – era Inverno, o frio aturdia – e levantou-se. Não com pressa, tranquilo como acreditava que os homens grandes faziam. Era o seu primeiro despertar de macho feito, faltava-lhe destrinçar a verdade da rotina. Se soubesse que a mãe estava morta, ou que se morria, ter-se-ia levantado de repente, num arroubo, sem sequer passar os dedos pelas pálpebras, menos ainda aguardar uns segundos, sentado na cama e nas ideias. Mas não adivinhava. Tão-pouco que o futuro eram aquelas quatro paredes bolorentas. Nunca mais se ergueria assim. Daí em diante, nas manhãs seguintes, nas manhãs dos próximos 20 anos, arrastar-se-ia na cama até as pernas desmaiarem no formigueiro do “não me movo”.
A mãe morreu antes das sete badaladas. Ou por aí, as carnes ainda quentes ao fumegar da chaleira. Ele fazia anos, 20 anos, virar homem. Esperava na cama, inquieto, vontade de correr até à cozinha, desapertar o nó do avental amarelo que ela nunca tirava, receber um beijo morno e o presente. O presente esperado. Sabia que a mãe amealhava há muito, moedas numa lata de alumínio azul, velho albergue de bolachas a açúcar salpicadas. Há uns anos, depois do desaire, homens de rosto cerrado levaram tudo o que tinham. A única fortuna que sobrou foi o cheiro a café acabado de fazer. E o amor. O amor que os mantinha lado a lado, a caminhar de queixo alto, desde o dia em que o pai se fora. Matara-se, pum! um tiro, morte que pesa a quem fica. Na escola, os miúdos faziam-lhe “pum!” E a verdade: “O meu pai matou-se”. Na rua, as vizinhas olhavam-no E a verdade: “O meu pai tinha dívidas, acobardou-se”. Em casa, a mãe abraçava-o E a verdade: “Estamos sozinhos”. Naquele dia, tudo se tornaria passado, jurava ele. Alcançava duas décadas, idade bastante para pum! fantasma.
Levantou-se da cama, lençol de flanela damasco maduro, tropeçou nos chinelos, correu, bateu a porta do quarto – para trás ficava a máscara de chegar a crescido. Mas na cozinha nada, nem café à sua espera nem avental para descarregar tropelias. Pôs a chaleira ao lume, deu voltas à mesa, dentes numa côdea de ontem. Junto ao saquinho de linho branco, Pão a ponto-cruz bordado, achou qualquer coisa, laço de presente. Um envelope: “Para o meu filho”. Ele. Tivesse pai e a prenda era a água-benta da geração. A todos calhava, de mão-beijada, um certo travo a orquídea em álcool. Uma ida às meninas da Rua da Jeropiga, luz encarnada a indicar a porta, saiotes a amaciarem chão, pares ao ritmo de quadris em calças de cotim. Mas não tinha. E a mãe, mais devota ao terço do que às intempéries do desejo, nunca o deixaria assim soltar os suspensórios. Continuava por chegar a data de Manuel aportar no varandim, cortina de veludo a fazer de porta, descobrir a matrona: “Porte-se benzinho, doutor”. Para que amealhara a mãe?
Meses a fazer bolos, bater ovos com farinha, tirar do forno e vender de casa em casa. No dia dos 20 anos, havia de dar ao filho entrada nos mistérios da vida. Não nas meninas, na bruxa. Antes, mulher de adivinhar. No fundo, e tirado o mote do prazer, ir a umas ou a outra assentava no mesmo. Pôr o destino nas mãos de alguém. A nu. Como se o descobrir fosse uma tentação de onde não se consegue sair. Estava decidida a dar-lhe o futuro de presente. O rapaz, sina na mão áspera, entrou e saiu da cozinha: “Mãe!”. Ela não respondeu, ele deu-a por atarefada na horta. Dar comida às galinhas, cortar ervas e encher o tanque de água. Gelada, graus de enrugar dedos. Ele encolheu os ombros, pegou no envelope embrulhado. Atirou o laço para cima da mesa, toalha com pêras pintadas, fruteira vazia. Leu: “Vale uma consulta na Madame Soledad”. Trazia a morada, dez minutos a caminhar. “Mãe, mãe! Vou lá a correr! Obrigada!” A chaleira a fumegar, os bichos a roerem a madeira do soalho, resposta alguma. “Mãe!” Nada. Demasiado burburinho nele para ouvir o silêncio. Partiu. Passos apressados, um cão no rasto, latidos em vez de banda, manchas castanhas nas orelhas, magreza a pedir ternura.
Dez minutos, cansaço nas pernas. Deteve-se. Duas portas erguiam-se à sua frente. Numa, salivar, cheiro morno de bolo de chocolate; noutra, franzir, odor quente de velas à espera. Manuel, intuição nos pés, aproximou-se da segunda. Nesse instante, a vida a começar (a parar). Quatro dedos de medo na maçaneta da porta, periclitantes. A mão esquerda ali, um minuto, dois, e nada. O cão calara-se, fora-se de orelhas baixas. O rapaz tremia, devia dizer “bom dia”, mas os lábios silenciavam-se. O corpo inteiro no mesmo compasso, nem rodar nem falar. Em frente a uma porta, maré de suor na maçaneta de madeira. Gasta, uma farripa a espetar as carnes. Aquela mulher do outro lado. A senti-lo perto, por ali, a chegar. A levantar-se da cadeira, passos esguios, quatro nem mais nenhum. Abrir a porta, a maçaneta a rodar e ele no corredor sem a conseguir largar. O lenho a cravar-se no monte de Saturno e ele preso à dor do descobrir. A porta a mover-se: “Estou à sua espera”. O rapaz a entrar. Abrir muito os olhos para ver melhor.
Primeiro, uma mancha encarnada. O cabelo dela como rosas desavindas. Depois, os santos, santinhos, imagens de pôr fé, numa prateleira, noutra, no chão, na mesa. Um gato preto a passar, caminhar vaidoso, via-se que capado. Uma mesa redonda e duas cadeiras, almofadas a jurarem conforto. Um lugar para ela e outro para ele. E ali, à vista de ambos, à mão dela, as cartas. Um baralho velho, gasto, o enforcado amarelado. Como se chamava ela? A esticar-lhe a mão: “Entre”. E a mão magra, quase escanzelada, veias prontas a zarparem, branca, muito branca, a indicar-lhe passagem: “Faça favor”. E ele a transpor o umbral, molhado de ansiedade. Os olhos dele presos à mão dela. Não bem à mão, mais ao indicador. Olhava sempre, era o que primeiro via em alguém. O indicador da mão esquerda - sangue de coração, quente até à raia. O dela mais ainda, quase tocava o dedo médio. Ordenava e ele cumpria.
Madame Soledad. Havia qualquer coisa nela que o baralhava. Cartas paradas à espera de lhe encontrarem o futuro. E o indicador a mostrar-lhe a cadeira: “Sente-se”. Sentou-se. Calado de medo. Rosto quente, desatino escalda. O indicador dela como pêndulo, ele a entregar-lhe o pensamento. O dedo vestido de anéis, pechisbeque a valer ouro, plástico a encarnar rubi. E a unha encarnada, afiada, a despontar como varinha de condão. E ele sem nenhum, um vazio no lugar do indicador. Nasceu assim, sabe-se lá porquê, desdado. A mãe bem lhe dizia, à noite, antes de arrumar as agulhas de bordar num saquinho, em tempos de alfazema: “Ai rapaz, estás fadado a não encontrar destino”. Desatino queima. Também por isso lhe oferecera aquele presente - cartas na manga para emendar a natureza.
Quantas vezes reviveria aquele momento? Todas as horas, todos os dias, todos os anos daqueles 20 anos. Encurvado na cama como bicho acossado, às voltas como ponteiro sem Norte. Fechado em quatro paredes. Elas bolorentas e ele também. Morto, à espera da vida. Nos primeiros meses, talvez ainda nos primeiros anos, o relógio da sala continuou a anunciar o escorrer das horas. Badaladas, presente a engolir futuro, badaladas. Depois, calou-se. Acabou-se a pilha, cansou-se de não ter em quem mandar no tempo. E ele deixou de o ouvir. Pouco se importou, o seu único ponteiro era mesmo o prato de comida. Um prato de servir sopa, esmalte branco e rebordo azul, coberto com um paninho bordado. Para não arrefecer, para limpar os lábios. Todos os finais de tarde, duas pancadas de punho cerrado na porta do quarto, tum-tum, a chave a rodar de mansinho, nem uma palavra, uma nesga de claridade, o prato no chão. Ele a apanhá-lo, a comer, mais um risco na parede, mais um dia desperdiçado. (Gostava de bacalhau com grão, espinhas guardadas para traçar calendário.) Às vezes, a cabeleireira encarnada daquela mulher tomava-lhe de assalto o olhar marejado. Espinhos: “Vai chegar a casa e encontrar um grande desaire”. A visão dela imbuída no retrato da mãe. Deitada na cama, morta ao amanhecer. Acertara na desgraça como não acertar no resto? Pensava nisto, via e revia o indicador de ourivesaria, unha a indicar marcha. Aquietava-se. Sem saber se dia se noite, quedo. E credo. Mas isso foi depois de a conhecer.
Havia velas espalhadas pela sala da mulher. Manuel revolvia-se na cadeira. Ela olhava-o sem verbo. Percebeu que era canhoto, pediu-lhe a mão esquerda. Decifrar que rumo seguiam seus dias. Ele avançou, tanto medo quanto à porta. Ao toque, ao primeiro toque, sentiu uma claridade (surpresa talvez) trespassar-lhe o peito. Algo estranho, nunca assim sentira. Nem quando se aventurara a cruzar a Rua da Jeropiga, carnes de mulher na esquina, nem sequer ao pousar a sua, na mão de Carolina. Na festa da terra, acordes de gaiteiros e ruído de cadeirinhas em círculo. Aquela mulher atordoava-o. Bruxa, adivinha. Talvez a insensatez do dedo dela, o cabelo não, talvez o ardor do olhar vazio, sem sombra de alegria ou de tristeza. De repente, ela sugou-o ao pensamento. O seu dedo percorria-lhe a mão como vento. Amainou, chamou-o pelo nome. Manuel. A mãe podia (devia) ter feito as apresentações, não se espantou. “É um homem de sorte.” Ele gostou daquelas palavras. Na verdade, era um poço onde corria a água turva da crença. Acreditava em Deus, em tudo o que fosse maior do que ele. E isso era, em pequeno, o relógio da sala. Em grande, o raio que fulminara a árvore do quintal. A igreja ao domingo, dormitar no sermão e nas velinhas. E era aquela mulher. Aprendera a crer no regaço da mãe, cedo entendera que a fé é o respirar dos infelizes. Dança de pulmões, para baixo e para cima. Ela pôs o baralho de lado: “Traz a vida nas mãos”. Trazia? “Eu vou ler e você vai ouvir.”
Ouviu. Vezes sem fim, de seguida, repetida. Anos a fio, a voz dela na cabeça dele. Vinte anos. Às voltas naquele quarto. Seu. O colchão amolgado do seu corpo, o chão ferido dos seus passos. Ouvia-a. “Nunca encontrei um destino assim. Não faça nada, nada que provoque a ira do fado. Há aqui um desaire. Dois, parecidos. Um está à sua espera em casa.” Assim era, o pai pum!, a mãe na cama por acordar. “Mas depois, depois disso é a glória. Destino de rei.” Quando já não conseguia escutar mais, as previsões ainda em eco a toldarem-lhe o juízo, sentava-se no chão junto à janela, entaipada com velhas tábuas. Cerrava as pálpebras e sentia a vida lá fora. O chão inteiro nos pés descalços e a terra, de quando em quando, a latejar como corpo de amante. A certa altura, ainda antes das fervuras, começara a ouvir vozes, um frenesim constante, gente sem medo de falar. Ao princípio assustara-se, pensou que viria a polícia, cacetetes em punho para rasgar a ousadia. Depois, deixou de tremer. Não entendia o que diziam, aos poucos fora-se esquecendo das palavras, sentia a sua existência e isso bastava. Por vezes, chegava uma música, canções soltas sem casa pobrezinha. Colava então o ouvido ao bolor da parede, mas já nada sabia do mundo. Como imaginar gente sobre carris debaixo dos seus pés, falar sem grades na esteira dos cravos?
O ar da manhã pouco corria na sala da mulher. Manuel pingava desassossego, ela não. Mas o suor de um era o de outro. Madame Soledad segurava-lhe a mão com força, a palma de encontro aos seus olhos, cor de quem caminha entre mundos. Não era cigana, apenas alma atrás do melhor vento. Entre uma tempestade e outra, aprendera a adorar as linhas. Sulcos falantes na mão de cada um. E a linha da vida de Manuel era funda como raiva de enxada em manhã de sementeira. A da cabeça não. Era de outra nação, entrecortada como se quisesse falar e não pudesse. Denunciava um homem, denunciava-o a ele, rapaz ainda aos tombos com ser quem é. A do coração, essa, nascia no exacto espaço onde deveria ter crescido o indicador. Linha por inteiro, sedutora como lua prenha. A mulher começou a desvendá-lo: “Parabéns, oh graças! É incrível! Vida de rei...” Sem freio, falava sem parar. E ele escutava, em silêncio, sem perguntas, quase embriagado, como se a cabeça em fermol. “Tem uma vida longa e cheia. Vai ser rico, muito rico, tão rico que não saberá o que fazer ao dinheiro. Vejo tanta, tamanha fortuna... Oh, oferece-me uns anéis?” E ele caído na rota do encanto. “Vai ter uma fábrica, não, duas, cinco! Dar emprego a muita gente e não ser empregado de ninguém.” As palavras rolavam dos lábios dela para os ouvidos dele, que nem dados em mesa de póquer. E ele percebia então. Tudo há muito escrito, o destino fundeado na palma da mão. Homem como disco num prato, faixa de vinil à espera de agulha, o futuro era certo. Canção. Apenas estar quieto para não baralhar a sorte.
Prendeu-se, liberdade de estar preso. Os anos a passarem e ele naquele quarto, sempre ali, encarcerado, a ouvi-la ainda. O futuro nas mãos e ele a cerrá-las para não perder o tempo. Caminhava em quadrados, pleno da medida exacta do seu mundo. A parede do fundo tinha três passos largos, a outra quatro, novamente três e outros quatro. Também podia medir em passinhos curtos, bailarino sem dança, 12 para o bolor do fundo, 16 ou 17 para a parede da cama, de novo 12 e mais 16. O lençol de flanela tornara-se tela de fios, roupa de cama em madeira que rangia e nada impedia de cair. Estava ali há 20 anos. Quieto. Duas décadas sem verbo. Gastas. Não fazer nada para não atordoar o destino.
Decidira assim, encerrar-se, cativo da sorte. Às vezes, ocorria-lhe desistir. Abrir a porta do quarto, esfregar os olhos para não estranhar a vida, subir o degrau do corredor, não bem isso mais lomba, e sair. A rua. Que imagem seria a do som? Pi-pi, pedrinhas a rolarem, acelera estúpido. Mas depois pensava em Carolina, lábios sedosos à espera dos seus. Podia tudo, menos arriscar-se a perdê-la. Desistia, ficava. Contava os anos pela barba. Começara por dar um nó, depois outro. Não sabe quando, falta-lhe saber tanto, desleixara-se. Nem mais um nó, pêlos pelo chão que nem vassoura. Contava os anos também pelos sonhos. De abóbora, fritos em óleo. Sempre dois, a deixarem nódoa no paninho de linho, todas as consoadas. Prenda do vizinho, isso e cinco velas, amigo de lançar pião sobre charneiras, na calçada da rua em frente.
No dia em que decidiu trancar-se à espera do futuro, pediu-lhe, ordenou-lhe que lhe levasse um prato de comida todos os começos de noite. Nada mais, nem palavras nem claridade. Sempre, até o destino acontecer. O outro retorquiu, não quis, mas Manuel foi em frente. Num abraço, lágrimas de adeus, cruzaram suas honras. Às vezes, quando o prato de comida (iscas é que não) tocava o chão do quarto, Manuel pensava chamá-lo. Gostava de saber o que lhe acontecera. O amigo era de azar, até a lançar o baraço sempre perdera. Imaginava-o, qual se despedira dele, à mercê do pai. Um velho sovina que dormia num travesseiro de serapilheira, diz-se que contos de réis a transbordar. Não corria água nem alento naquela casa. O chão fazia-se de agulhas de pinheiro, folhas de sobreiro e parras de periquita. Os ossos que o cão não queria amontoavam-se, as fezes de uns e de outros também. Chão estralhado, assim se chamava o engenho de poupar na tijoleira e ganhar no estrume. Coisa de gente bruta, ensinara-lhe a mãe, criada longe de tais usos. Arroto a sair da boca, navalha e queijo no bolso, dorso feito à sela do burro.
Madame Soledad tinha sotaque de ficar no ouvido. Falava como quem declama, as sílabas agudas sugadas até para além da pauta. Cheirava a hortênsias, chá de jasmim. E soprava o destino: “Estou a ver, sim, não tenho dúvidas, oh, que linda! Cabelos longos, pele macia, sorriso ateado. Chama-se Carolina, não é?” Era. “É sua, está-lhe destinada. Vão casar, ter filhos – quatro filhos – que felizes!” E ele a levitar, imaginar-se de mão dada a voar os anos. A mulher não se calava, a mão dele contava tanto que ela até o baralho desprezava. Fortuna, mulher amada, saúde, alegrias, presentes de sorrir. Ele ouviu até ao fim, cada palavra uma condenação. Saiu de lá a correr, rapaz feito rei. Caia uma chuva inquieta, uma pedra teimava em magoar-lhe o pé. Em dó menor, o estômago orquestrava. Sonata rouca, não tanto vontade de comer, mais fome. Esquecera-se do mata-bicho, chaleira ao lume. Chegou a casa e encontrou a mãe. Morta, morrera antes da alvorada. Abraçou-a e chorou-a. O resto do dia, a noite inteira. Mas as palavras da mulher cozinhavam-lhe ambições nos ouvidos. O desaire era aquele caixão de madeira barata e ele nele debruçado. A mulher acertara na dor, faltava cumprir-se a fortuna. À saída do cemitério passou por Carolina: “Até ao nosso casamento!”. A rapariga riu envergonhada, crente que era graça. Depois, o amigo e a porta do quarto a fechar-se. Trás!
Ele lá dentro, roupa desfeita pelo tempo. Já nem calças intactas para se sentir apertado, explosão de rapazinho, ao pensar na esquina da Rua da Jeropiga. Os olhos adourados feitos penumbra, os sons da rua a inquietarem-no. Na outra noite, quase jurava, alguém se encostara à sua janela a namorar. Ouvira juras de irem com o vento, não entendia como, o varandim da matrona palpitava a quarteirões. Caminhava de um lado para o outro. Cansado, corroído de tanto esperar. Suava, há horas que corria em quadrado, “vou apanhar-te, vou apanhar-te, anda cá malandro!”, como a mãe atrás das galinhas. Corria sem parar, tropeçava na barba, nos passos, na desilusão de si, “anda cá danado, vou apanhar-te! Anda cá, destino!” E caia, e corria, “ai Carolina”, e levantava-se e corria e caia.
Nisto, de repente, o inesperado. Como imaginar? Um barulho, a chave a rodar, um suspiro, última volta, um instante. De súbito, a porta do quarto a abrir-se. Alguém a abri-la. Vinte anos depois, o mundo de par em par. Ele cego, atordoado pela claridade, estourado, a atirar-se para o chão. Chorar sem lágrimas. Seco. Há quanto tempo secara? E o vizinho a livrar-se do papel de carcereiro: “Manel, desculpa, não posso mais!”. Vinte anos, durante tanto, mensageiro de o manter vivo. Sobrevivente. Agora desistia, não suportava mais. Baixou-se, abraçou-o: “Manel!”. Vinte anos passados, a história a parar (a começar). Levantou-o, sentaram-se na cama. Os dois homens. Cegos. Claridade lá de fora, escuridão cá de dentro. O vizinho falou, falou até não lhe restar palavra. Manuel demorou a ouvir. Via apenas. Pernas de mulheres a passarem, rodas apressadas, miúdos de sapatos novos. O país outro. A vida toda a um passo e ele, há vinte anos, num quadrado. Fechado.
Depois, ouviu, ouviu tudo até não lhe restar fé. Incrédulo. O amigo era um homem feliz. Lançara-se à vida, nos bancos da escola e nos becos do amor. Trepara a pulso. Estava rico, muito rico, tão rico que lhe comprara uma casa, alpendre e tudo. Estava ali para lhe dar as chaves. Esta, junto ao mercado, aguardava demolição, daria esquina a um banco. Das noites no chão de estralho, ranho a passear no buço, nem memória guardava. Tinha cinco fábricas, muitos empregados e ninguém a quem obedecer. Era feliz, oh, se era. Casara com Carolina, romance urdido a cartas de água mole. Viajavam com os filhos, netos a caminho, quatro filhos. Manuel escutava, cada palavra como bala em moribundo. Inconformado. Abriu a mão esquerda, olhou as linhas do destino. Ali estavam. O tempo passara por elas inclemente, já nem elas as mesmas. Não as reconhecia, não se reconhecia. Desistia-se. O seu destino a outro coubera. Ele não tinha nada, nem vida. Apenas sombra.
Há 20 anos, a mãe morreu pela manhã. Desconhecem-se as badaladas do último sopro, a ronda exacta dos ponteiros do relógio da sala. Esguio como ponto de exclamação: “Eu estou aqui e sou dono do teu tempo!”. Ninguém sabe quando morreu, andava para partir há muito. Um inchaço, uma dor, um cansaço – mal sem nome. Terá sofrido, sorrido? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o relógio de vaidades burguesas, oferecido por uma tia velha de que ninguém lembra o rosto. Em quando andaria ele? É dono do tempo, mas não do que cabe nele.
Manuel acordou à hora do costume, galo de crista no ar, silêncio de pernas curtas, sete badaladas. Despertou ansioso, o laço de um presente aguardava os nós dos seus dedos. Era o dia do seu aniversário. Quereres para amanhã desabotoavam-lhe o sorriso. Faltava-lhe um dente, nada que lhe roubasse o encanto. Corpo de celta, olhos adourados como que pincelados, coisa de arte. Esfregou-os, ramelas nas esquinas, afastou as mantas de lã – era Inverno, o frio aturdia – e levantou-se. Não com pressa, tranquilo como acreditava que os homens grandes faziam. Era o seu primeiro despertar de macho feito, faltava-lhe destrinçar a verdade da rotina. Se soubesse que a mãe estava morta, ou que se morria, ter-se-ia levantado de repente, num arroubo, sem sequer passar os dedos pelas pálpebras, menos ainda aguardar uns segundos, sentado na cama e nas ideias. Mas não adivinhava. Tão-pouco que o futuro eram aquelas quatro paredes bolorentas. Nunca mais se ergueria assim. Daí em diante, nas manhãs seguintes, nas manhãs dos próximos 20 anos, arrastar-se-ia na cama até as pernas desmaiarem no formigueiro do “não me movo”.
A mãe morreu antes das sete badaladas. Ou por aí, as carnes ainda quentes ao fumegar da chaleira. Ele fazia anos, 20 anos, virar homem. Esperava na cama, inquieto, vontade de correr até à cozinha, desapertar o nó do avental amarelo que ela nunca tirava, receber um beijo morno e o presente. O presente esperado. Sabia que a mãe amealhava há muito, moedas numa lata de alumínio azul, velho albergue de bolachas a açúcar salpicadas. Há uns anos, depois do desaire, homens de rosto cerrado levaram tudo o que tinham. A única fortuna que sobrou foi o cheiro a café acabado de fazer. E o amor. O amor que os mantinha lado a lado, a caminhar de queixo alto, desde o dia em que o pai se fora. Matara-se, pum! um tiro, morte que pesa a quem fica. Na escola, os miúdos faziam-lhe “pum!” E a verdade: “O meu pai matou-se”. Na rua, as vizinhas olhavam-no E a verdade: “O meu pai tinha dívidas, acobardou-se”. Em casa, a mãe abraçava-o E a verdade: “Estamos sozinhos”. Naquele dia, tudo se tornaria passado, jurava ele. Alcançava duas décadas, idade bastante para pum! fantasma.
Levantou-se da cama, lençol de flanela damasco maduro, tropeçou nos chinelos, correu, bateu a porta do quarto – para trás ficava a máscara de chegar a crescido. Mas na cozinha nada, nem café à sua espera nem avental para descarregar tropelias. Pôs a chaleira ao lume, deu voltas à mesa, dentes numa côdea de ontem. Junto ao saquinho de linho branco, Pão a ponto-cruz bordado, achou qualquer coisa, laço de presente. Um envelope: “Para o meu filho”. Ele. Tivesse pai e a prenda era a água-benta da geração. A todos calhava, de mão-beijada, um certo travo a orquídea em álcool. Uma ida às meninas da Rua da Jeropiga, luz encarnada a indicar a porta, saiotes a amaciarem chão, pares ao ritmo de quadris em calças de cotim. Mas não tinha. E a mãe, mais devota ao terço do que às intempéries do desejo, nunca o deixaria assim soltar os suspensórios. Continuava por chegar a data de Manuel aportar no varandim, cortina de veludo a fazer de porta, descobrir a matrona: “Porte-se benzinho, doutor”. Para que amealhara a mãe?
Meses a fazer bolos, bater ovos com farinha, tirar do forno e vender de casa em casa. No dia dos 20 anos, havia de dar ao filho entrada nos mistérios da vida. Não nas meninas, na bruxa. Antes, mulher de adivinhar. No fundo, e tirado o mote do prazer, ir a umas ou a outra assentava no mesmo. Pôr o destino nas mãos de alguém. A nu. Como se o descobrir fosse uma tentação de onde não se consegue sair. Estava decidida a dar-lhe o futuro de presente. O rapaz, sina na mão áspera, entrou e saiu da cozinha: “Mãe!”. Ela não respondeu, ele deu-a por atarefada na horta. Dar comida às galinhas, cortar ervas e encher o tanque de água. Gelada, graus de enrugar dedos. Ele encolheu os ombros, pegou no envelope embrulhado. Atirou o laço para cima da mesa, toalha com pêras pintadas, fruteira vazia. Leu: “Vale uma consulta na Madame Soledad”. Trazia a morada, dez minutos a caminhar. “Mãe, mãe! Vou lá a correr! Obrigada!” A chaleira a fumegar, os bichos a roerem a madeira do soalho, resposta alguma. “Mãe!” Nada. Demasiado burburinho nele para ouvir o silêncio. Partiu. Passos apressados, um cão no rasto, latidos em vez de banda, manchas castanhas nas orelhas, magreza a pedir ternura.
Dez minutos, cansaço nas pernas. Deteve-se. Duas portas erguiam-se à sua frente. Numa, salivar, cheiro morno de bolo de chocolate; noutra, franzir, odor quente de velas à espera. Manuel, intuição nos pés, aproximou-se da segunda. Nesse instante, a vida a começar (a parar). Quatro dedos de medo na maçaneta da porta, periclitantes. A mão esquerda ali, um minuto, dois, e nada. O cão calara-se, fora-se de orelhas baixas. O rapaz tremia, devia dizer “bom dia”, mas os lábios silenciavam-se. O corpo inteiro no mesmo compasso, nem rodar nem falar. Em frente a uma porta, maré de suor na maçaneta de madeira. Gasta, uma farripa a espetar as carnes. Aquela mulher do outro lado. A senti-lo perto, por ali, a chegar. A levantar-se da cadeira, passos esguios, quatro nem mais nenhum. Abrir a porta, a maçaneta a rodar e ele no corredor sem a conseguir largar. O lenho a cravar-se no monte de Saturno e ele preso à dor do descobrir. A porta a mover-se: “Estou à sua espera”. O rapaz a entrar. Abrir muito os olhos para ver melhor.
Primeiro, uma mancha encarnada. O cabelo dela como rosas desavindas. Depois, os santos, santinhos, imagens de pôr fé, numa prateleira, noutra, no chão, na mesa. Um gato preto a passar, caminhar vaidoso, via-se que capado. Uma mesa redonda e duas cadeiras, almofadas a jurarem conforto. Um lugar para ela e outro para ele. E ali, à vista de ambos, à mão dela, as cartas. Um baralho velho, gasto, o enforcado amarelado. Como se chamava ela? A esticar-lhe a mão: “Entre”. E a mão magra, quase escanzelada, veias prontas a zarparem, branca, muito branca, a indicar-lhe passagem: “Faça favor”. E ele a transpor o umbral, molhado de ansiedade. Os olhos dele presos à mão dela. Não bem à mão, mais ao indicador. Olhava sempre, era o que primeiro via em alguém. O indicador da mão esquerda - sangue de coração, quente até à raia. O dela mais ainda, quase tocava o dedo médio. Ordenava e ele cumpria.
Madame Soledad. Havia qualquer coisa nela que o baralhava. Cartas paradas à espera de lhe encontrarem o futuro. E o indicador a mostrar-lhe a cadeira: “Sente-se”. Sentou-se. Calado de medo. Rosto quente, desatino escalda. O indicador dela como pêndulo, ele a entregar-lhe o pensamento. O dedo vestido de anéis, pechisbeque a valer ouro, plástico a encarnar rubi. E a unha encarnada, afiada, a despontar como varinha de condão. E ele sem nenhum, um vazio no lugar do indicador. Nasceu assim, sabe-se lá porquê, desdado. A mãe bem lhe dizia, à noite, antes de arrumar as agulhas de bordar num saquinho, em tempos de alfazema: “Ai rapaz, estás fadado a não encontrar destino”. Desatino queima. Também por isso lhe oferecera aquele presente - cartas na manga para emendar a natureza.
Quantas vezes reviveria aquele momento? Todas as horas, todos os dias, todos os anos daqueles 20 anos. Encurvado na cama como bicho acossado, às voltas como ponteiro sem Norte. Fechado em quatro paredes. Elas bolorentas e ele também. Morto, à espera da vida. Nos primeiros meses, talvez ainda nos primeiros anos, o relógio da sala continuou a anunciar o escorrer das horas. Badaladas, presente a engolir futuro, badaladas. Depois, calou-se. Acabou-se a pilha, cansou-se de não ter em quem mandar no tempo. E ele deixou de o ouvir. Pouco se importou, o seu único ponteiro era mesmo o prato de comida. Um prato de servir sopa, esmalte branco e rebordo azul, coberto com um paninho bordado. Para não arrefecer, para limpar os lábios. Todos os finais de tarde, duas pancadas de punho cerrado na porta do quarto, tum-tum, a chave a rodar de mansinho, nem uma palavra, uma nesga de claridade, o prato no chão. Ele a apanhá-lo, a comer, mais um risco na parede, mais um dia desperdiçado. (Gostava de bacalhau com grão, espinhas guardadas para traçar calendário.) Às vezes, a cabeleireira encarnada daquela mulher tomava-lhe de assalto o olhar marejado. Espinhos: “Vai chegar a casa e encontrar um grande desaire”. A visão dela imbuída no retrato da mãe. Deitada na cama, morta ao amanhecer. Acertara na desgraça como não acertar no resto? Pensava nisto, via e revia o indicador de ourivesaria, unha a indicar marcha. Aquietava-se. Sem saber se dia se noite, quedo. E credo. Mas isso foi depois de a conhecer.
Havia velas espalhadas pela sala da mulher. Manuel revolvia-se na cadeira. Ela olhava-o sem verbo. Percebeu que era canhoto, pediu-lhe a mão esquerda. Decifrar que rumo seguiam seus dias. Ele avançou, tanto medo quanto à porta. Ao toque, ao primeiro toque, sentiu uma claridade (surpresa talvez) trespassar-lhe o peito. Algo estranho, nunca assim sentira. Nem quando se aventurara a cruzar a Rua da Jeropiga, carnes de mulher na esquina, nem sequer ao pousar a sua, na mão de Carolina. Na festa da terra, acordes de gaiteiros e ruído de cadeirinhas em círculo. Aquela mulher atordoava-o. Bruxa, adivinha. Talvez a insensatez do dedo dela, o cabelo não, talvez o ardor do olhar vazio, sem sombra de alegria ou de tristeza. De repente, ela sugou-o ao pensamento. O seu dedo percorria-lhe a mão como vento. Amainou, chamou-o pelo nome. Manuel. A mãe podia (devia) ter feito as apresentações, não se espantou. “É um homem de sorte.” Ele gostou daquelas palavras. Na verdade, era um poço onde corria a água turva da crença. Acreditava em Deus, em tudo o que fosse maior do que ele. E isso era, em pequeno, o relógio da sala. Em grande, o raio que fulminara a árvore do quintal. A igreja ao domingo, dormitar no sermão e nas velinhas. E era aquela mulher. Aprendera a crer no regaço da mãe, cedo entendera que a fé é o respirar dos infelizes. Dança de pulmões, para baixo e para cima. Ela pôs o baralho de lado: “Traz a vida nas mãos”. Trazia? “Eu vou ler e você vai ouvir.”
Ouviu. Vezes sem fim, de seguida, repetida. Anos a fio, a voz dela na cabeça dele. Vinte anos. Às voltas naquele quarto. Seu. O colchão amolgado do seu corpo, o chão ferido dos seus passos. Ouvia-a. “Nunca encontrei um destino assim. Não faça nada, nada que provoque a ira do fado. Há aqui um desaire. Dois, parecidos. Um está à sua espera em casa.” Assim era, o pai pum!, a mãe na cama por acordar. “Mas depois, depois disso é a glória. Destino de rei.” Quando já não conseguia escutar mais, as previsões ainda em eco a toldarem-lhe o juízo, sentava-se no chão junto à janela, entaipada com velhas tábuas. Cerrava as pálpebras e sentia a vida lá fora. O chão inteiro nos pés descalços e a terra, de quando em quando, a latejar como corpo de amante. A certa altura, ainda antes das fervuras, começara a ouvir vozes, um frenesim constante, gente sem medo de falar. Ao princípio assustara-se, pensou que viria a polícia, cacetetes em punho para rasgar a ousadia. Depois, deixou de tremer. Não entendia o que diziam, aos poucos fora-se esquecendo das palavras, sentia a sua existência e isso bastava. Por vezes, chegava uma música, canções soltas sem casa pobrezinha. Colava então o ouvido ao bolor da parede, mas já nada sabia do mundo. Como imaginar gente sobre carris debaixo dos seus pés, falar sem grades na esteira dos cravos?
O ar da manhã pouco corria na sala da mulher. Manuel pingava desassossego, ela não. Mas o suor de um era o de outro. Madame Soledad segurava-lhe a mão com força, a palma de encontro aos seus olhos, cor de quem caminha entre mundos. Não era cigana, apenas alma atrás do melhor vento. Entre uma tempestade e outra, aprendera a adorar as linhas. Sulcos falantes na mão de cada um. E a linha da vida de Manuel era funda como raiva de enxada em manhã de sementeira. A da cabeça não. Era de outra nação, entrecortada como se quisesse falar e não pudesse. Denunciava um homem, denunciava-o a ele, rapaz ainda aos tombos com ser quem é. A do coração, essa, nascia no exacto espaço onde deveria ter crescido o indicador. Linha por inteiro, sedutora como lua prenha. A mulher começou a desvendá-lo: “Parabéns, oh graças! É incrível! Vida de rei...” Sem freio, falava sem parar. E ele escutava, em silêncio, sem perguntas, quase embriagado, como se a cabeça em fermol. “Tem uma vida longa e cheia. Vai ser rico, muito rico, tão rico que não saberá o que fazer ao dinheiro. Vejo tanta, tamanha fortuna... Oh, oferece-me uns anéis?” E ele caído na rota do encanto. “Vai ter uma fábrica, não, duas, cinco! Dar emprego a muita gente e não ser empregado de ninguém.” As palavras rolavam dos lábios dela para os ouvidos dele, que nem dados em mesa de póquer. E ele percebia então. Tudo há muito escrito, o destino fundeado na palma da mão. Homem como disco num prato, faixa de vinil à espera de agulha, o futuro era certo. Canção. Apenas estar quieto para não baralhar a sorte.
Prendeu-se, liberdade de estar preso. Os anos a passarem e ele naquele quarto, sempre ali, encarcerado, a ouvi-la ainda. O futuro nas mãos e ele a cerrá-las para não perder o tempo. Caminhava em quadrados, pleno da medida exacta do seu mundo. A parede do fundo tinha três passos largos, a outra quatro, novamente três e outros quatro. Também podia medir em passinhos curtos, bailarino sem dança, 12 para o bolor do fundo, 16 ou 17 para a parede da cama, de novo 12 e mais 16. O lençol de flanela tornara-se tela de fios, roupa de cama em madeira que rangia e nada impedia de cair. Estava ali há 20 anos. Quieto. Duas décadas sem verbo. Gastas. Não fazer nada para não atordoar o destino.
Decidira assim, encerrar-se, cativo da sorte. Às vezes, ocorria-lhe desistir. Abrir a porta do quarto, esfregar os olhos para não estranhar a vida, subir o degrau do corredor, não bem isso mais lomba, e sair. A rua. Que imagem seria a do som? Pi-pi, pedrinhas a rolarem, acelera estúpido. Mas depois pensava em Carolina, lábios sedosos à espera dos seus. Podia tudo, menos arriscar-se a perdê-la. Desistia, ficava. Contava os anos pela barba. Começara por dar um nó, depois outro. Não sabe quando, falta-lhe saber tanto, desleixara-se. Nem mais um nó, pêlos pelo chão que nem vassoura. Contava os anos também pelos sonhos. De abóbora, fritos em óleo. Sempre dois, a deixarem nódoa no paninho de linho, todas as consoadas. Prenda do vizinho, isso e cinco velas, amigo de lançar pião sobre charneiras, na calçada da rua em frente.
No dia em que decidiu trancar-se à espera do futuro, pediu-lhe, ordenou-lhe que lhe levasse um prato de comida todos os começos de noite. Nada mais, nem palavras nem claridade. Sempre, até o destino acontecer. O outro retorquiu, não quis, mas Manuel foi em frente. Num abraço, lágrimas de adeus, cruzaram suas honras. Às vezes, quando o prato de comida (iscas é que não) tocava o chão do quarto, Manuel pensava chamá-lo. Gostava de saber o que lhe acontecera. O amigo era de azar, até a lançar o baraço sempre perdera. Imaginava-o, qual se despedira dele, à mercê do pai. Um velho sovina que dormia num travesseiro de serapilheira, diz-se que contos de réis a transbordar. Não corria água nem alento naquela casa. O chão fazia-se de agulhas de pinheiro, folhas de sobreiro e parras de periquita. Os ossos que o cão não queria amontoavam-se, as fezes de uns e de outros também. Chão estralhado, assim se chamava o engenho de poupar na tijoleira e ganhar no estrume. Coisa de gente bruta, ensinara-lhe a mãe, criada longe de tais usos. Arroto a sair da boca, navalha e queijo no bolso, dorso feito à sela do burro.
Madame Soledad tinha sotaque de ficar no ouvido. Falava como quem declama, as sílabas agudas sugadas até para além da pauta. Cheirava a hortênsias, chá de jasmim. E soprava o destino: “Estou a ver, sim, não tenho dúvidas, oh, que linda! Cabelos longos, pele macia, sorriso ateado. Chama-se Carolina, não é?” Era. “É sua, está-lhe destinada. Vão casar, ter filhos – quatro filhos – que felizes!” E ele a levitar, imaginar-se de mão dada a voar os anos. A mulher não se calava, a mão dele contava tanto que ela até o baralho desprezava. Fortuna, mulher amada, saúde, alegrias, presentes de sorrir. Ele ouviu até ao fim, cada palavra uma condenação. Saiu de lá a correr, rapaz feito rei. Caia uma chuva inquieta, uma pedra teimava em magoar-lhe o pé. Em dó menor, o estômago orquestrava. Sonata rouca, não tanto vontade de comer, mais fome. Esquecera-se do mata-bicho, chaleira ao lume. Chegou a casa e encontrou a mãe. Morta, morrera antes da alvorada. Abraçou-a e chorou-a. O resto do dia, a noite inteira. Mas as palavras da mulher cozinhavam-lhe ambições nos ouvidos. O desaire era aquele caixão de madeira barata e ele nele debruçado. A mulher acertara na dor, faltava cumprir-se a fortuna. À saída do cemitério passou por Carolina: “Até ao nosso casamento!”. A rapariga riu envergonhada, crente que era graça. Depois, o amigo e a porta do quarto a fechar-se. Trás!
Ele lá dentro, roupa desfeita pelo tempo. Já nem calças intactas para se sentir apertado, explosão de rapazinho, ao pensar na esquina da Rua da Jeropiga. Os olhos adourados feitos penumbra, os sons da rua a inquietarem-no. Na outra noite, quase jurava, alguém se encostara à sua janela a namorar. Ouvira juras de irem com o vento, não entendia como, o varandim da matrona palpitava a quarteirões. Caminhava de um lado para o outro. Cansado, corroído de tanto esperar. Suava, há horas que corria em quadrado, “vou apanhar-te, vou apanhar-te, anda cá malandro!”, como a mãe atrás das galinhas. Corria sem parar, tropeçava na barba, nos passos, na desilusão de si, “anda cá danado, vou apanhar-te! Anda cá, destino!” E caia, e corria, “ai Carolina”, e levantava-se e corria e caia.
Nisto, de repente, o inesperado. Como imaginar? Um barulho, a chave a rodar, um suspiro, última volta, um instante. De súbito, a porta do quarto a abrir-se. Alguém a abri-la. Vinte anos depois, o mundo de par em par. Ele cego, atordoado pela claridade, estourado, a atirar-se para o chão. Chorar sem lágrimas. Seco. Há quanto tempo secara? E o vizinho a livrar-se do papel de carcereiro: “Manel, desculpa, não posso mais!”. Vinte anos, durante tanto, mensageiro de o manter vivo. Sobrevivente. Agora desistia, não suportava mais. Baixou-se, abraçou-o: “Manel!”. Vinte anos passados, a história a parar (a começar). Levantou-o, sentaram-se na cama. Os dois homens. Cegos. Claridade lá de fora, escuridão cá de dentro. O vizinho falou, falou até não lhe restar palavra. Manuel demorou a ouvir. Via apenas. Pernas de mulheres a passarem, rodas apressadas, miúdos de sapatos novos. O país outro. A vida toda a um passo e ele, há vinte anos, num quadrado. Fechado.
Depois, ouviu, ouviu tudo até não lhe restar fé. Incrédulo. O amigo era um homem feliz. Lançara-se à vida, nos bancos da escola e nos becos do amor. Trepara a pulso. Estava rico, muito rico, tão rico que lhe comprara uma casa, alpendre e tudo. Estava ali para lhe dar as chaves. Esta, junto ao mercado, aguardava demolição, daria esquina a um banco. Das noites no chão de estralho, ranho a passear no buço, nem memória guardava. Tinha cinco fábricas, muitos empregados e ninguém a quem obedecer. Era feliz, oh, se era. Casara com Carolina, romance urdido a cartas de água mole. Viajavam com os filhos, netos a caminho, quatro filhos. Manuel escutava, cada palavra como bala em moribundo. Inconformado. Abriu a mão esquerda, olhou as linhas do destino. Ali estavam. O tempo passara por elas inclemente, já nem elas as mesmas. Não as reconhecia, não se reconhecia. Desistia-se. O seu destino a outro coubera. Ele não tinha nada, nem vida. Apenas sombra.
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